Pontos-chave
- Um novo estudo identificou microplásticos em quase um terço dos peixes analisados em ilhas remotas do Pacífico, com taxas de contaminação que variaram de pouco menos de 5% em Vanuatu a mais de 74% em Fiji.
- Peixes que vivem em recifes e espécies que se alimentam no fundo apresentaram os maiores níveis de contaminação, especialmente entre aquelas que comem pequenos invertebrados.
- Pesquisadores alertam que a predominância de fibras sintéticas vindas de têxteis e de equipamentos de pesca evidencia a vulnerabilidade dos sistemas alimentares locais em comunidades que dependem fortemente do peixe como principal fonte de proteína.
Microplásticos já são praticamente onipresentes - e você provavelmente já ouviu isso diversas vezes. Estimativas apontam que entre 75 e 199 milhões de toneladas de resíduos plásticos circulam nos oceanos do planeta, e a cada ano mais material chega aos cursos d’água. Mesmo sabendo que esse é um problema, um estudo recente ajuda a dimensionar o quanto essa dispersão se tornou alarmante.
Em janeiro, um grupo de cientistas publicou no periódico PLOS One os resultados de uma pesquisa que avaliou 878 peixes, de 138 espécies, obtidos em comunidades costeiras de algumas das ilhas mais isoladas do mundo - incluindo Fiji, Tonga, Tuvalu e Vanuatu. Os exemplares analisados já haviam sido pescados por pescadores locais e tinham como destino a mesa do jantar antes de entrarem no estudo.
Após a análise, a equipa constatou que, em média, 32,7% dos peixes apresentavam microplásticos no trato gastrointestinal, com uma média de 0,76 partículas plásticas por peixe. Ainda assim, os percentuais variaram bastante conforme o país: em Fiji, 74,5% dos peixes amostrados tinham microplásticos; em Tonga e Tuvalu, os níveis ficaram numa faixa intermediária (41,7% e 37,3%, respetivamente); e Vanuatu registou a menor taxa, com apenas 4,8% dos peixes contendo plásticos.
Embora a pesquisa não tenha procurado explicar por que Fiji exibiu números tão altos, os autores sugeriram alguns fatores possíveis, como maior densidade populacional, desenvolvimento costeiro, diferenças na gestão de resíduos e variações importantes nas correntes oceânicas.
O estudo também mostrou que peixes associados a recifes tinham probabilidade significativamente maior de conter plástico do que aqueles de águas abertas ou profundas. Além disso, espécies que se alimentam no fundo apresentaram mais contaminação do que peixes que comem em profundidades menores. Outro achado foi que os invertívoros - peixes que se alimentam de pequenos invertebrados, como vermes e crustáceos - exibiram, no geral, as maiores taxas de contaminação.
O tipo de plástico encontrado também chamou a atenção. Nos quatro países, predominaram fibras de microplástico, como as provenientes de têxteis e de equipamentos de pesca, que representaram 66% a 95% das partículas identificadas pela equipa. Os plásticos mais comuns foram polietileno (PE), polipropileno (PP), polietileno tereftalato (PET) e nylon.
“Além dos insights ecológicos, este estudo traz um alerta contundente sobre a vulnerabilidade dos nossos sistemas alimentares: descobrimos que os peixes associados a recifes e os que se alimentam no fundo, mais acessíveis aos nossos pescadores de subsistência, estão a atuar como reservatórios de poluição sintética, especialmente em Fiji, onde quase três quartos dos indivíduos amostrados continham microplásticos”, afirmou Rufino Varea, pesquisador da University of South Pacific e colaborador do estudo, em comunicado. “O predomínio de fibras nestas amostras desafia a suposição de que o lixo marinho é apenas um problema visível e de gestão costeira; ele indica uma infiltração generalizada de contaminantes derivados de têxteis e de equipamentos na própria dieta das nossas comunidades.”
Comer peixe na era dos microplásticos: o que o estudo em peixes do Pacífico sugere
É possível remover microplásticos ao limpar o peixe?
A maior parte dos microplásticos desta pesquisa foi encontrada no trato gastrointestinal, que normalmente é removido antes do preparo. No entanto, alguns estudos sugerem que partículas muito pequenas ainda podem estar presentes em tecidos comestíveis.
Ainda é seguro comer frutos do mar?
Especialistas em saúde continuam a recomendar frutos do mar pelos ômega-3 e pela proteína magra. Embora os microplásticos sejam uma preocupação crescente, a investigação sobre o impacto direto deles na saúde humana ainda está em evolução.
Alguns peixes têm maior probabilidade de conter microplásticos?
Sim. Nesta pesquisa, peixes associados a recifes e espécies que se alimentam no fundo foram mais propensos a conter plásticos, assim como as espécies que comem pequenos invertebrados.
Peixes de cultivo são mais seguros do que peixes selvagens?
Microplásticos já foram encontrados tanto em peixes de cultivo quanto em peixes selvagens. Os níveis de contaminação muitas vezes dependem mais das condições ambientais locais do que do fato de o peixe ser criado em cativeiro.
Embora os pesquisadores não tenham medido as implicações desses microplásticos para a saúde humana, vale lembrar que os peixes avaliados eram destinados ao consumo. Como os autores destacaram, em comunidades de todo o Pacífico o peixe é uma fonte primária de proteína. Além disso, há numerosos outros estudos que apontam para possíveis efeitos adversos em humanos, incluindo maior risco de eventos cardiovasculares maiores, inflamação e potenciais impactos na função neurológica.
“Embora os níveis de microplásticos em peixes do Pacífico sejam geralmente mais baixos do que em muitas regiões industrializadas, as comunidades do Pacífico dependem muito mais do peixe como principal fonte de proteína”, acrescentou Amanda Ford, pesquisadora da University of South Pacific. “Somado a grandes lacunas de dados em toda a região, isso torna essencial a produção de evidências locais à medida que avançam as negociações do Tratado Global dos Plásticos e que elas são traduzidas em políticas nacionais.”
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