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Veo 3 e Sora 2: como reconhecer vídeos falsos de animais gerados por IA

Homem editando vídeo de cachorro correndo na grama em laptop e smartphone em uma sala.

O jeito mais fácil de contemplar bichos imaginários - e, ao mesmo tempo, esquecer que os animais reais estão sofrendo e, em alguns casos, desaparecendo.

Com o avanço acelerado de alguns modelos de IA, como o Veo 3, do Google, e o Sora 2, da OpenAI, vídeos fabricados de animais “encenados” têm se espalhado pelas redes sociais. Em certos casos, o realismo é tão convincente que parece bom demais para ser verdade… e, às vezes, realmente não é. Embora algumas imagens e gravações tragam um aviso de que foram geradas artificialmente (como a foto no topo deste artigo, por exemplo), muitas não trazem qualquer indicação e, sem perceber, esses conteúdos distorcem nossa relação com a natureza e com a realidade.

Essa é a hipótese defendida por um estudo publicado em 3 de setembro na revista Conservation Biology, que vai além e sugere que essa tendência pode prejudicar a conservação da fauna selvagem. Mesmo diante do hiper-realismo de parte desses vídeos, ainda dá para não cair no golpe e aprender a separar o verdadeiro do falso; veja como.

O avanço do Veo 3 e do Sora 2 e a explosão de vídeos de animais

O crescimento desse tipo de conteúdo não é só uma curiosidade tecnológica: ele está mudando o que as pessoas acreditam ver sobre a vida selvagem. A facilidade de criar cenas “perfeitas” faz com que a internet seja inundada por situações improváveis - e o problema se agrava quando o público consome isso como se fosse registro do mundo real.

Por que esses vídeos posam problema?

Os autores do estudo destacam três desvios principais associados a essas produções, algumas com vários milhões de visualizações no TikTok ou no YouTube. O primeiro é o risco de formarmos uma visão fantasiosa do comportamento animal.

O caso do crocodilo no barco: um comportamento impossível

Um exemplo é o vídeo que mostra um crocodilo entrando calmamente em um barco pequeno com três homens, sem que ninguém reaja. Um crocodilo não se comportaria assim: trata-se de um predador que tenderia a fugir ou atacar e, no mínimo, provocaria uma resposta imediata das pessoas à frente dele. Além disso, pelo peso do animal, essa embarcação afundaria quase na hora - enquanto, na gravação, ela mal se mexe. Isso sem contar alguns artefatos visuais que dá para notar, ponto ao qual voltaremos adiante.

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A segunda deriva apontada é que, ao sermos expostos repetidamente a esse material, passamos a antropomorfizar demais os animais. Na prática, essas cenas frequentemente os transformam em “personagens”, e não em seres guiados por impulsos biológicos e pelas limitações próprias de cada espécie.

O terceiro e último problema: esse tipo de vídeo reforça um afastamento entre o que é a natureza “de verdade” e a sociedade humana. À primeira vista, isso pode parecer irrelevante, mas não é o que pensa o zoólogo José Guerrero Casado, coautor do estudo. “O que nos preocupa é que esses vídeos não mostram a realidade: eles fabricam ideias falsas, e é assim que a desinformação se espalha. Mas, para defender a biodiversidade, é preciso que o público tenha acesso a informações confiáveis”, afirma.

Com a repetição incessante na tela, esses conteúdos acabam adulterando o modo como enxergamos a alteridade animal. Nos vídeos que circulam por aí, tudo vira possível: espécies ameaçadas aparecem como se fossem comuns e onipresentes, predadores surgem como inofensivos, presas agem com agressividade, e comportamentos que não existem na vida real são tratados como normais. É uma natureza “domesticada”, roteirizada ao extremo, que molda nossa compreensão de um reino animal que nunca existiu. Os deepfakes - sim, é disso que se trata - já eram desastrosos do ponto de vista político; também o são sob a ótica ecológica.

Como reconhecer esses vídeos falsos gerados por IA?

Ainda que essas gravações enganem o olhar e pareçam autênticas, os modelos que as produzem não são impecáveis, e os resultados finais ainda carregam falhas. Siwei Lyu, especialista em deepfakes, resume os sinais mais úteis para identificá-las.

Vídeos gerados por IA podem parecer convincentes, mas alguns detalhes denunciam a fraude. Fique atento a movimentos fluidos demais ou que desafiam as leis da física. Confira incoerências na iluminação: sombras e reflexos nem sempre batem. Por fim, observe detalhes finos como pelos ou penas, que os modelos tendem a borrar ou a repetir de forma artificial”, explica.

Exemplo da mofeta e das hienas: quando a cena não fecha

No exemplo a seguir, uma mofeta-listrada (Mephitis mephitis) supostamente se defende de várias hienas que a atacam em plena savana. Para começar, são dois animais que não dividem as mesmas regiões geográficas. A mofeta-listrada vive principalmente na América do Norte, enquanto as hienas existem apenas no continente africano: esse encontro já seria impossível por definição.

Depois, olhando com mais atenção, fica claro que, quando o animal lança o seu almíscar para afastar as hienas, a substância sai… pela parte frontal do corpo, embora ela seja produzida por glândulas anais. Na realidade, a mofeta se defende virando as costas para os adversários. Os movimentos aparecem um tanto erráticos, a luz parece artificial, as texturas ficam lisas demais e a cena inteira tem um clima sintético que termina de tirar qualquer credibilidade. Em resumo, nada faz sentido.

Esse vídeo é apenas um entre milhões e, se você se deixar levar pelo doomscrolling, é bem provável que encontre muitos outros do mesmo tipo. Por isso, é essencial adotar uma postura extremamente crítica ao consumir vídeos entregues ao acaso pelos algoritmos. O que já era verdadeiro antes é ainda mais agora: não confie cegamente no que você encontra na web. A verdade deixou de ter qualquer prioridade quando o objetivo é gerar audiência - e quem publica esses vídeos artificiais sabe muito bem disso. Se não formos capazes de duvidar, questionar e checar, aceitamos que nosso olhar perca qualquer valor crítico; o que, por si só, é uma derrota moral e ética inaceitável.

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