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Música pode ajudar a proteger o cérebro e reduzir o risco de demência, indica estudo australiano

Mulher sorridente tocando violão sentada no sofá, com livro de música aberto e fones sobre a mesa.

Nós já conhecíamos a ideia de que a música “amansa os costumes”, como Platão mencionava em seus escritos, mas ela pode ter um peso ainda maior quando o assunto é a sua saúde mental.

Envelhecimento cerebral e hábitos de vida

À medida que envelhecemos, o cérebro - assim como os demais órgãos - passa por mudanças: o processamento de informações fica mais lento, a memória começa a falhar e a plasticidade neuronal perde eficiência. Esse declínio é um processo natural e inevitável, porém sofre forte influência do nosso estilo de vida.

Alguns hábitos jogam contra (consumo excessivo de substâncias tóxicas, pouca qualidade de sono, alimentação inadequada ou estresse crônico, por exemplo). Outros, ao contrário, podem funcionar como fator de proteção. Além da prática regular de atividade física e da estimulação intelectual, a música também entra nessa lista: um estímulo sensorial e emocional capaz de ativar, ao mesmo tempo, diferentes redes do cérebro. Um grande estudo australiano, publicado em 3 de outubro na revista International Journal of Geriatric Psychiatry, trouxe dados robustos sobre esse possível efeito protetor.

Seu cérebro é um melômano

Com o avanço da idade, algumas áreas do cérebro tendem a diminuir de volume (como o hipocampo e o córtex associativo) e as vias neurais que sustentam nossas funções cognitivas se tornam menos eficientes com o tempo. Trata-se de uma erosão gradual que a música parece desacelerar, de acordo com as conclusões do estudo.

Estudo australiano sobre música e risco de demência

Durante três anos, os pesquisadores acompanharam 10.893 participantes com 70 anos ou mais - todos sem diagnóstico de demência no início da pesquisa. Quem declarou ouvir música com regularidade apresentou uma probabilidade 39% menor de desenvolver demência em comparação com aqueles que nunca ou raramente ouviam. O mesmo padrão apareceu para alterações cognitivas mais leves: entre ouvintes regulares, a ocorrência foi 17% menor.

Os autores também observaram que as pessoas que escutavam música com maior frequência tiveram melhor desempenho em testes de cognição global e de memória episódica (a habilidade de recordar acontecimentos específicos do dia a dia).

Por que a música pode ter esse efeito

Como explicar esse resultado? Para a neuropsiquiatra e epidemiologista Joanne Ryan, coautora do trabalho, o ponto central é que ouvir música ativa simultaneamente um grande número de regiões cerebrais. Essa atuação em conjunto favoreceria a plasticidade cerebral - algo especialmente valioso no envelhecimento.

Limites do estudo: associação não é causa

Ainda assim, a equipe não diz que um vínculo causal rigoroso esteja comprovado, porque um estudo observacional não consegue demonstrar se a música realmente protege o cérebro. Podem existir vieses, como a possibilidade de pessoas com melhor saúde cognitiva tenderem a ouvir mais música. “A música poderia assim contribuir para preservar algumas funções cognitivas com a idade, sem que se possa afirmar que ela seja, por si só, a origem dessa proteção”, explica Emma Jaffa, autora principal do estudo.

A prática frequente de um instrumento também apareceu como benéfica para o cérebro: as pessoas que tocavam tinham probabilidade bem menor de receber um diagnóstico de demência, com redução de 35% em relação aos demais participantes.

E quando o hábito de ouvir música se soma ao de tocar, o cenário fica ainda melhor: os diagnósticos de demência caem 33%, e as outras alterações cognitivas (não relacionadas à demência) diminuem 22%.

Em nenhum momento foi demonstrado que a música - seja ouvida, seja tocada - funcione como uma espécie de “vacina contra a demência”. Ainda assim, é difícil negar que ela represente um ambiente altamente estimulante para o cérebro. E, francamente, se um hábito tão prazeroso pode fazer bem aos nossos neurônios, não faz sentido abrir mão dele. É hora de resgatar suas playlists do Spotify ou Deezer, seu CD ou seus vinis: você não vai parar o tempo, mas pode oferecer ao cérebro um banho musical do qual ele gosta!

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