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Nova teoria sobre a Tapeçaria de Bayeux na Abadia de Santo Agostinho

Grupo de monges vestidos com hábitos marrons comendo e lendo em mesa de madeira em ambiente antigo.

O enigma da Tapeçaria de Bayeux

A Tapeçaria de Bayeux - um imenso pano bordado que narra acontecimentos que desembocam na Batalha de Hastings, em 1066 - há muito tempo intriga especialistas, mas essa obra antes relegada ao esquecimento pode, enfim, ter um “endereço” plausível.

Embora exista um consenso quase total de que o projeto da tapeçaria partiu de monges ligados à Abadia de Santo Agostinho, em Cantuária, na Inglaterra, e de que a execução ficou a cargo de um grupo de bordadeiras altamente habilidosas, ainda não se sabe com certeza nem o motivo de sua criação nem o local exato em que foi exibida.

A hipótese do refeitório na Abadia de Santo Agostinho (Tapeçaria de Bayeux)

Em um artigo acadêmico recente, o historiador Benjamin Pohl apresenta uma leitura diferente: para ele, a tapeçaria teria funcionado como “leitura” de refeição para os monges de Santo Agostinho - ou de algum mosteiro com práticas semelhantes.

"Eu me perguntei se um ambiente de refeitório poderia ajudar a explicar algumas das aparentes e intrigantes contradições identificadas na bibliografia existente", diz Pohl, referindo-se aos salões de alimentação coletiva em que os monges faziam as refeições.

"Assim como hoje, na Idade Média as refeições sempre foram uma ocasião importante para o convívio social, a reflexão coletiva, a hospitalidade e o entretenimento, além da celebração de identidades comunitárias. Nesse contexto, a Tapeçaria de Bayeux teria encontrado um cenário perfeito."

Embora não exista prova direta de que a Tapeçaria de Bayeux tenha ficado guardada na Abadia de Santo Agostinho, Pohl afirma que há diversos indícios de que ela pode ter sido pendurada, no passado, nas paredes do refeitório do mosteiro.

O tamanho descomunal da peça - com mais de 68,4 metros de comprimento (cerca de 224 pés) e pesando por volta de 350 quilogramas (aproximadamente 772 libras) - implica que, para ser exposta, ela precisaria ser fixada diretamente em uma parede sólida.

Pesquisadores já sugeriram que a obra poderia ter permanecido desde sempre na Catedral de Bayeux (onde foi encontrada no século XV). Pohl, porém, ressalta que as abóbadas, os vãos e as colunatas das paredes do templo a tornariam "um dos espaços menos adequados para exibir o bordado gigante".

Para Pohl, a tapeçaria provavelmente foi concebida pensando em um público religioso, porque "sua ambiguidade política ostensiva (e talvez deliberada) e a ausência de partidarismo… parecem difíceis de conciliar com a identidade e a autopercepção da aristocracia inglesa do pós-Conquista".

Além disso, as inscrições em latim, embora sejam simples, exigiriam um nível de alfabetização incomum entre nobres do século XI. Para monges, por outro lado, decifrar os dizeres bordados seria uma tarefa bem mais trivial.

A ideia de uma audiência monástica ganha ainda mais força quando se consideram as regras rígidas que orientavam as refeições nos mosteiros: os monges tinham de ficar em silêncio absoluto, chegando ao ponto de recorrer à linguagem de sinais para pedir, por exemplo, que alguém passasse o sal. Nessa lógica, a tapeçaria poderia ter servido como um entretenimento moral e educativo durante as refeições.

"Com a comunidade monástica de Santo Agostinho como seu público principal, a Tapeçaria de Bayeux não precisava contar histórias de patriotismo e orgulho nacional/ressentimento que comentaristas modernos projetam sobre ela", escreve Pohl.

Em vez disso, ele propõe que sua narrativa pode ser entendida como "uma que revelava a ação de Deus por meio das atitudes de agentes humanos, de modo muito semelhante aos episódios das Escrituras e a outros tipos de historiografia/hagiografia lidos para eles durante as refeições".

Espaço, cronologia e o possível desaparecimento

O refeitório de Santo Agostinho teria sido um local particularmente adequado para acomodar uma obra tão difícil de manejar: com pelo menos 70 metros de área de parede interna disponível, o edifício oferecia espaço suficiente para pendurar a tapeçaria - mesmo que o trecho final, hoje ausente, tivesse vários metros adicionais.

Na década de 1080, um novo refeitório foi planejado para o mosteiro, mas uma sequência de contratempos freou a construção. O primeiro foi a morte prematura, em 1087, do primeiro abade de Santo Agostinho após a Conquista, Scolland, que defendia a reforma.

Depois, a morte do sucessor impopular de Scolland, Wido - contra quem os monges chegaram a se rebelar abertamente - deixou o cargo de abade vago por mais de uma década.

E, quando a função finalmente foi assumida por Hugh I, as prioridades em Santo Agostinho estavam em outro lugar, de modo que o refeitório só foi concluído na década de 1120.

Pohl sugere que, em meio a essa reforma longa e atribulada, a tapeçaria pode ter sido embalada, guardada e, aos poucos, apagada da memória coletiva do mosteiro.

"Consequentemente, a Tapeçaria pode ter sido colocada em armazenamento por mais de uma geração e esquecida até que, eventualmente, encontrasse o caminho para Bayeux três séculos depois", diz Pohl.

Isso ajudaria a entender por que ela sobreviveu a diferentes desastres que atingiram a abadia - um incêndio, um terremoto e uma reforma do século XIII - e também por que não aparece em registros até surgir em um inventário de Bayeux, em 1476.

"Ainda não há como provar de forma conclusiva onde a Tapeçaria de Bayeux esteve antes de 1476, e talvez nunca haja", explica Pohl.

"Mas as evidências apresentadas aqui tornam o refeitório monástico de Santo Agostinho um concorrente sério."

A Tapeçaria de Bayeux completa pode ser vista na Wikipédia, aqui.

O artigo foi publicado na revista Pesquisa Histórica.

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