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A função das florestas no aquecimento global é mais complexa do que se imaginava.

Cientista com jaleco analisando solo seco em campo com instrumentos de medição ambiental e prancheta.

Modelos climáticos usados hoje, aplicados de forma uniforme a florestas do mundo inteiro, podem estar parcialmente equivocados. Um componente capaz de mudar (quase) tudo ficou subestimado: a complexidade do ciclo do nitrogênio quando entra em cena a seca.

Por muito tempo, para a climatologia, o aumento das temperaturas globais provocado pelo aquecimento global levaria inevitavelmente os solos florestais a se comportarem como verdadeiras “fábricas de gases”. Com o aquecimento, os micróbios e outros micro-organismos desses ecossistemas liberariam óxidos de nitrogênio, gases de efeito estufa que se acumulam na atmosfera. Assim, acreditava-se firmemente em um ciclo vicioso: essa poluição intensificaria o aquecimento que, por sua vez, sobreaqueceria os solos e os empobreceria em nitrogênio - um nutriente essencial para o crescimento das árvores.

Como o calor pode desacelerar o ciclo do nitrogênio nas florestas?

Para testar essa hipótese em condições reais, a Universidade da Califórnia em Riverside (UCR) decidiu observar o processo com mais rigor, acompanhando por quase seis anos uma floresta na China. Ao fim do monitoramento, os pesquisadores constataram que o modelo clássico nem sempre se sustenta e que, contra a intuição, o aquecimento pode reduzir as emissões de gases nitrogenados. Mas sob uma condição específica: a floresta precisa estar com falta de água. O estudo foi publicado em 15 de outubro de 2025 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Para obter evidências diretas, a equipe da UCR instalou uma rede de sensores em seis parcelas (108 m2) de uma floresta no condado de Qingyuan (nordeste da China), com potentes aquecedores infravermelhos posicionados acima do solo. A proposta era superaquecer o ambiente para reproduzir as temperaturas previstas pelos modelos climáticos para 2050, deixando o solo 2° C acima do normal.

O sistema permaneceu operando sem interrupção por seis anos, com apoio de “narizes eletrônicos” programados para abrir e vedar hermeticamente em intervalos regulares, permitindo medir continuamente as trocas gasosas entre o solo e a atmosfera. Com isso, foram reunidos mais de 200 000 registros sobre os fluxos de gases nitrogenados.

Pelo raciocínio do “ciclo vicioso do nitrogênio” descrito antes, esperava-se uma disparada nas emissões - porém ocorreu exatamente o oposto. As liberações de monóxido de nitrogênio (NO) caíram 19%, enquanto as de óxido nitroso (N2O) recuaram 16%. Hoje, o N2O é mais conhecido pelo público devido a escândalos associados a ele (gás hilariante), mas, na climatologia, chama atenção sobretudo pelo seu potencial de aquecimento: cerca de 300 vezes superior ao do CO2.

Pete Homyak, professor da UCR, afirma que a explicação só se tornou clara ao observar o comportamento no campo: “Sempre pensamos que o aquecimento aceleraria os processos microbianos. Isso é verdade em laboratório, mas, no campo, o calor seca o solo. E, sem umidade, os micróbios desaceleram e a química para”. Em outras palavras, a “máquina” biológica (o solo da floresta) precisa de combustível para operar (calor), mas também de lubrificante (água). Sem este, ela emperra - e o metabolismo microbiano diminui, levando junto a queda das emissões de nitrogênio.

Uma boa notícia? Nem tanto

Em tese, menos óxido nitroso na atmosfera significa um aquecimento menos intenso. Seria tentador concluir que os modelos estavam profundamente incompletos e comemorar, mas a ecologia raramente oferece respostas simples. Há dois pontos de atenção na descoberta da UCR.

O primeiro é geográfico. Essa desaceleração microbiana aparece apenas abaixo de um limiar hidroclimático: 1 000 mm de precipitação por ano. Ou seja, o efeito se aplica principalmente a florestas em regiões secas ou temperadas. Já em florestas tropicais ou áreas muito úmidas, o aquecimento continua atuando como estimulante, elevando fortemente as emissões de nitrogênio para a atmosfera - exatamente como previam os modelos anteriores.

O segundo ponto envolve a própria condição da floresta. À primeira vista, se menos nitrogênio escapa na forma de gás, seria lógico imaginar mais nitrogênio retido no solo para alimentar as árvores. Isso deveria resultar em florestas mais exuberantes, com mais folhas e, portanto, melhores sumidouros de carbono. Na prática, não é o que acontece.

Os dados coletados pela equipe da UCR indicam que as árvores nas parcelas aquecidas crescem mais devagar devido ao estresse hídrico. A falta de água reduz ao mesmo tempo a atividade microbiana ligada ao ciclo do nitrogênio e a absorção de nutrientes pelas raízes. Essas duas limitações físicas restringem o crescimento da vegetação e, por consequência, a capacidade de armazenamento de carbono do ecossistema florestal. Para o ecólogo Kai Huang, “é outro problema igualmente grave”.

Diante disso, os pesquisadores consideram urgente atualizar os modelos climáticos para incorporar essa nova variável. Se as simulações ignorarem essas interações entre calor e ciclo do nitrogênio, corremos o risco de trabalhar no escuro, subestimando o impacto real do aquecimento nos ecossistemas. E o futuro não tende a ser mais indulgente por causa disso: mesmo corrigidos, esses modelos continuam sendo ferramentas descritivas e analíticas. Eles podem, sim, ajudar a evitar erros grosseiros de interpretação, mas é impossível contar com eles para reduzir a inércia climática. É como medir a altura de um penhasco depois de ter saltado: o cálculo pode até estar correto, mas não deixa de ser completamente inútil.

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