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Tamu Massif no Shatsky Rise: o supervulcão de 145 milhões de anos sob o Pacífico

Ilustração mostra vulcão submarino emergindo do mar com barco no pôr do sol ao fundo.

Um consórcio internacional de cientistas identificou, bem abaixo do Pacífico, um supervulcão antigo que supera tudo o que se conhecia na Terra em termos de escala. A estrutura é tão grande que, por décadas, foi interpretada como um conjunto de elevações separadas. Só com técnicas modernas de medição ficou claro: trata-se de um único vulcão gigantesco, formado há cerca de 145 milhões de anos.

Um monstro submerso: o que explica o Tamu Massif no Shatsky Rise

O vulcão recebe o nome de Tamu Massif e está no Shatsky Rise, um platô submarino remoto a aproximadamente 1.600 quilômetros a leste do Japão. Ali, a bacia oceânica despenca de forma abrupta, as correntes são intensas e chegar com navios de pesquisa exige grande esforço.

Durante muito tempo, especialistas trataram a área como um mosaico de vários cones vulcânicos. Os mapas exibiam três grandes inchaços do relevo, apelidados de maneira quase casual como “o da esquerda”, “o da direita” e “o grande”. Pouca gente considerava seriamente que tudo aquilo pudesse fazer parte de um único sistema contínuo.

Novos dados sísmicos indicam que aquilo que parecia uma cadeia de montes é, na realidade, um único corpo vulcânico conectado - o maior vulcão individual conhecido na Terra.

A virada veio com medições de reflexão sísmica: ondas sonoras são enviadas ao fundo do mar e, a partir dos ecos, é possível reconstruir camadas e estruturas no subsolo. Com isso, os pesquisadores identificaram fluxos de lava contínuos, capazes de ligar todas as porções do maciço em um só complexo. O Tamu Massif ocupa cerca de 120.000 milhas quadradas - ou seja, bem acima de 300.000 quilômetros quadrados.

Maior do que qualquer outro vulcão do planeta

As dimensões fogem das referências usuais da vulcanologia. Para efeito de comparação, o Mauna Loa, no Havaí - frequentemente chamado de maior vulcão ativo da Terra - soma algo em torno de 2.000 milhas quadradas, uma fração minúscula da área.

  • Tamu Massif: cerca de 120.000 milhas quadradas de área
  • Mauna Loa (Havaí): cerca de 2.000 milhas quadradas de área
  • Altura do topo: aproximadamente 2.000 metros abaixo da superfície do mar
  • Profundidade na base: quase 6.500 metros abaixo do nível do mar
  • Idade: cerca de 145 milhões de anos

Com isso, o gigante submerso do Pacífico entra no radar de comparações “planetárias”: ele é frequentemente colocado lado a lado com o Olympus Mons, em Marte, o maior vulcão do Sistema Solar. O vulcão marciano continua sendo mais alto, mas, em termos de área, o Tamu Massif atua em uma faixa semelhante.

Pelo porte, esse supervulcão do Pacífico alcança uma escala que, em geral, só se vê em megaestruturas planetárias como o Olympus Mons.

Um vulcão que não tem “cara” de vulcão

Quem imagina um cone íngreme com cratera fumegante está, neste caso, pensando no tipo errado de forma. O Tamu Massif é um vulcão-escudo - só que em tamanho extremo. Suas encostas são tão suaves que, segundo os pesquisadores, se alguém estivesse sobre elas, mal perceberia para que lado o terreno desce.

O topo do vulcão fica por volta de 2.000 metros abaixo da superfície oceânica. A partir dali, o fundo marinho cai até profundidades de quase 6.500 metros. As rampas se estendem de maneira gradual por centenas de quilômetros. Esse formato se desenvolveu porque lava muito fluida saiu repetidas vezes de uma fonte central, espalhando-se em grandes áreas.

Como um escudo de lava

Na classificação dos vulcanólogos, essa arquitetura é típica de um vulcão-escudo, em oposição a estratovulcões mais íngremes, como o Etna. No Tamu Massif, o “escudo” aparece de forma particularmente marcante:

  • alcance extremamente amplo
  • inclinação muito baixa
  • fluxos de lava uniformes e de grande extensão
  • uma região magmática central como origem

Foram justamente essas características que dificultaram enxergar o conjunto como uma unidade. Nas primeiras representações cartográficas, a estrutura larga e quase lisa lembrava mais um platô do que um vulcão convencional.

Um retrato da história da Terra há 145 milhões de anos

Os cientistas situam a formação do Tamu Massif em cerca de 145 milhões de anos, no fim do Jurássico. Naquele período, a distribuição dos continentes era bem diferente, os dinossauros dominavam as áreas emersas e a crosta oceânica dessa região ainda era relativamente jovem.

Erguer um vulcão desse porte exige volumes enormes de magma vindos de partes mais profundas do manto. Isso aponta para um suprimento magmático muito forte e persistente, possivelmente comparável a hotspots ou às fontes de Large Igneous Provinces, vastas províncias de basaltos de inundação.

O Tamu Massif ajuda a entender como, em fases geológicas extremas, câmaras magmáticas gigantes podem se formar e remodelar a crosta oceânica de maneira intensa em pouco tempo.

Outro ponto relevante: após ser construído, o vulcão parece ter perdido atividade relativamente rápido. Ou seja, ele não se comportou como um hotspot duradouro, como o do Havaí, e sim como o produto de um intervalo geologicamente curto - porém extremamente intenso - de erupções.

O que essa descoberta muda para a pesquisa

O fato de um vulcão tão imenso ter passado despercebido por tanto tempo reforça o quanto a imagem do fundo oceânico ainda é incompleta. Apenas uma pequena parcela do assoalho marinho foi mapeada com alta resolução. Estruturas grandes até aparecem de forma aproximada via gravimetria por satélite, mas conclusões precisas dependem de campanhas com navios, sonares e instrumentos sísmicos.

Enquadrar o Tamu Massif como um único vulcão mexe com diversos campos das geociências:

  • Platôs oceânicos: muitos eram vistos como áreas alimentadas por vários vulcões; agora fica claro que também podem resultar de um supervulcão isolado.
  • Modelos de vulcanismo: as explicações para a origem de grandes vulcões precisam acomodar a formação de um escudo tão amplo no meio do oceano.
  • Dinâmica do manto terrestre: o volume de magma necessário revela pistas sobre correntes e condições térmicas no manto superior há 145 milhões de anos.

Risco hoje? O que esse megavulcão ainda representa

Quem pensa em um gigante adormecido pronto para despertar pode ficar tranquilo: pelo conhecimento atual, o Tamu Massif é considerado extinto. Os derrames de lava são muito antigos, quase não há atividade sísmica na região central, e não existem indícios de magma recente em uma profundidade próxima o suficiente da superfície.

Ainda assim, o colosso segue relevante em várias frentes de pesquisa:

  • História do CO₂ na Terra: erupções gigantes do passado costumam se relacionar a mudanças climáticas; ocorrências desse tipo ajudam a contextualizar oscilações antigas.
  • Questões de recursos minerais: vulcões submarinos podem concentrar depósitos ricos em metais ou minérios raros. No Tamu Massif, a profundidade extrema dificulta investigações, mas o tema é teoricamente importante.
  • Comparações com outros planetas: a analogia com o Olympus Mons torna o maciço atraente para a ciência planetária. Ao estudar o vulcanismo marciano, estruturas assim também ensinam sobre a Terra - e o inverso também vale.

Termos e contexto: o que muita gente não percebe

Vários termos técnicos parecem complicados, mas descrevem ideias relativamente diretas. Reflexão sísmica, por exemplo, é basicamente o seguinte: envia-se um “pulso de som” ao subsolo e observa-se como ele retorna ao encontrar diferentes camadas rochosas. Com os tempos de retorno, monta-se uma imagem do interior, parecida com um ultrassom médico.

Já um platô submarino como o Shatsky Rise pode ser entendido como um grande espessamento do fundo do mar. No lugar da planície abissal mais baixa, surge uma espécie de “mesa de montanha” ampla, que se eleva milhares de metros em relação ao entorno - mas ainda permanece muito abaixo da superfície.

Essas formas também interferem em correntes oceânicas, na deposição de sedimentos e, possivelmente, na evolução de habitats no fundo do mar. Mesmo inativo hoje, o Tamu Massif continua moldando de modo significativo o espaço oceânico ao seu redor.

A trajetória desse supervulcão também deixa claro como a Terra ainda guarda surpresas - sobretudo onde não se enxerga diretamente. O maior vulcão individual conhecido do planeta não estava em uma paisagem chamativa, e sim oculto sob vários quilômetros de água e rocha. Só com paciência, tecnologia e um pouco de teimosia, “aquele grande morro lá atrás” virou um dos vulcões mais intrigantes já descritos pela geologia.

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